Nos conhecemos ainda crianças, no primário, ambos com doze anos. Concluímos o ensino fundamental juntos, mudamos para a mesma escola, concluímos o ensino médio. Numa tarde da década de 90, encontrei sua mãe na rua, que quando me viu, simplesmente caiu em prantos. Eu, sem saber o que fazer, só pude abraçá-la e tentar confortá-la. Foi quando ela me deu a notícia: você havia contraído o HIV e tornara-se mais uma estatística. A princípio fiquei surpresa, mas eu não podia pensar nisso, pois precisava dar forças à sua mãe. Então eu a acalmei e disse que ser soropositivo não era sentença de morte, que haviam remédios, tratamentos, enfim, que você poderia levar uma vida quase normal...
Por essa época já contávamos vinte anos. Nos tornamos adultos, os anos passaram, mas a amizade não. Quando você resolveu sair de casa me deu seus contatos e toda vez que trocava de endereço me avisava. Nunca nos abandonamos, nunca nos perdemos. Essas afinidades foram percebidas ainda na infância, pela forma como sentimos, percebemos e encaramos o mundo, as pessoas, a vida. Sempre senti você como um irmão que a genética não me ofereceu, mas que a vida generosamente me presenteou. E acredito também que você sentia o mesmo. Durante vinte anos fomos amigos, irmãos, confidentes, companheiros da vida. Talvez eu nunca mais tenha um amigo como você, que me fizesse sentir tão à vontade, com quem eu podia falar sobre qualquer assunto, porque assim como eu, não trazia preconceitos arraigados nem no coração, nem na alma. Há uns dois ou três anos atrás veio a cegueira. E você, o que fez? Simplesmente sorriu para a vida e encarou a pedreira, com tamanha coragem, com tamanha vontade de viver, que faria inveja a qualquer suicida, qualquer depressivo. Você prestou vestibular para Letras (até o curso escolhemos o mesmo), foi aprovado e simplesmente foi o primeiro portador de deficiência visual a estudar naquela universidade; simplesmente apresentou um programa de computador especialmente desenvolvido para deficientes visuais, assim como conquistou respeito e admiração de colegas, professores, funcionários. E o que dizer da família e dos amigos?
Nunca a cegueira dos olhos foi desculpa para cegar-lhe a alma. Você fez curso de massoterapia e tornou-se um dos profissionais mais respeitados da área. Dessa vez a vida nos colocou na mesma profissão, comprovando assim, que somos mesmo irmãos de coração. Trabalhou num projeto social, prestando atendimento às senhoras da terceira idade. Em julho passado você concluiu a faculdade e pretendíamos trabalhar juntos num projeto de educação de jovens e adultos, se não fosse o fato da doença ter agravado seu estado de saúde, pois há um ano, os remédios não faziam mais efeito e tentava adaptar-se a outros medicamentos, sem sucesso.
Hoje completa um mês que partiu, retornando à origem, à pátria para onde todos nós iremos um dia. Com apenas trinta e dois anos, tenho certeza de que você viveu cem, duzentos anos. As experiências pelas quais passou e viveu, foram grandes lições, sem dúvida alguma. Mas em meu coração trago a certeza de que você está em um lugar merecido, uma vez que soube fazer de sua vida um belo, sublime e verdadeiro espetáculo. Deixa muitas saudades, é certo, mas principalmente, a lição de que limitações físicas não são desculpas para limitações da alma; a lição de que o espírito, quando forte, quando não se permite envenenar pelas agruras do mundo, é capaz de sobrepujar e vencer a matéria. Você comprovou, mais uma vez, que a Mente humana é responsável por nossas escolhas, portanto, somos nós os roteiristas do nosso destino. Nosso destino é moldado pela nossa mente, pelas escolhas que fazemos.
Você fez a diferença neste mundo porque soube fazer da sua vida o palco de expressão da Verdade, do Bem e do Belo.
A você, Alexander, meu amigo, irmão, confidente, companheiro, meu muito obrigado, por trazer Luz à minha vida e por nessa passagem pela Terra ter tido a chance de ser parte da sua.
Você partiu e nem sequer soube que eu tinha conhecimento da doença. Que diferença isso faria?
Como dia letra da canção:
"não é preciso ter conta sanguínea,
é preciso ter sempre
um pouco mais de sintonia,
família..."

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