Trinta e três. Recomeçar aos trinta e três. A mulher que mais admiro no mundo, que traz dentro de si a força e energia de uma leoa, recomeçou aos quarenta e quatro.
Quarenta e quatro. Foi essa a idade que Minha Querida Mãe largou marido, casa e objetos materiais para se renovar. Tudo bem que era outra a motivação, mas começar vida nova do zero, com duas filhas adolescentes não é para qualquer um. Por isso sempre digo que minha heroína é Mãe.
Baiana de Salvador, filha caçula de quatro irmãos(caçula oficialmente, do casamento de Vô e Vó, mas Mãe tem dezoito irmãos), veio para o Rio ao encontro da Mãe, que também havia deixado o marido por conta das 'puladas de cerca'. Fora deixada por Vó aos quatro anos e veio para a Cidade Maravilhosa aos dezoito. Aqui conseguiu bons empregos, namorou... até que conheceu meu genitor. Entre namoro, casamento e noivado, foram vinte e seis anos de convívio. Gerou a mim e uma irmã quatro anos mais nova. Ficou casada por dezenove anos... quando descobriu que, tal qual acontecera à sua Mãe, estava sendo traída por meu digníssimo pai.
Até o abandono da casa, foram quatro anos de tentativa inútil, de salvar um casamento falido e fadado à monotonia e completo desrespeito.
Acho que daí vem minha aversão pelo enlace. Aos trinta e três constato, mais uma vez, que não tenho perfil de mulher casadoira. Mas sinto uma necessidade quase que patológica de ser amada, de viver uma relação de companheirismo e cumplicidade mútuas. Meu corpo sem filhos vai tomando o contorno dos anos, ao mesmo tempo em que reclama seus direitos de corpo de mulher. Sempre me pergunto até quando durará essa tortura, ou mesmo se um dia ela terá fim.
Por vezes sinto um imenso pesar por ser tão intensa e verdadeira, por simplesmente não aceitar absolutamente nada que não seja de igual forma. Gostaria de ser capaz de manter relações frívolas, fazer figuração, encarnar personagens. Mas minha índole é transparente até a medula.
Me entedio facilmente e pessoas desinteressantes e apáticas não dão conta da minha fome, nem da minha sede. Quisera eu ser córrego. Mas nasci Oceano.




