quinta-feira, maio 21, 2009

Missões

Existem três coisas na vida para as quais eu nasci e pelas quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever e nasci para ser mãe. O "amar os outros" é tão amplo que inclui até perdão por mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão essenciais que minha vida é curta para tanto. Amar os outros é a minha única salvação: ninguém estará perdido se der amor e se às vezes receber amor em troca.

E nasci para escrever. A palavra é a substância de que sou feita. Minha comunhão com o mundo. Desde a infância fui seduzida pela magia das palavras e não sei o porquê, foi esta a vocação que segui. Talvez porque escrever seja uma espécie de verborragia: o fluxo da vida se vivendo em nós e através de nós. Aos cinco anos iniciei-me nessa alquimia para que um dia tivesse o poder de dominar as palavras: se me dão papel pautado, escrevo do outro lado. Mas cada vez que vou escrever é como se fosse a primeira.
A possibilidade de renascer toda vez que escrevo é o que eu chamo de viver. E quero renascer sempre.

Brás Cubas não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria; eu, porém, a transmitiria de bom grado. Mas os filhos não vieram, nem acredito que ainda possam vir: para tudo há tempo, e o meu, nesse caso, já passou. Mas se tivessem vindo, creio que eu teria sido boa mãe, porque era um desejo muito forte e sincero. Eles não vieram e eu segui, sem deixar minha descendência no mundo.

Mas sempre me restará amar. Escrever é uma experiência extremamente forte, mas que pode me abandonar: posso sentir um dia que já escrevi tudo o que me cabia e que também devo saber o momento de parar. Escrever não me dá garantia.
Ao passo que amar posso até a hora da morte. Morte? Eu não vivo. Uma alma vive em mim. Por isso possuo a arte de dominar o infinito. Amar não acaba.
Não ter tido meus próprios filhos não quer dizer que não sou mãe: toda mulher já nasce mãe, ainda que os filhos não venham. Além do mais, não ter filhos me dá a chance de ser educadora da humanidade. É como se o mundo estivesse a me chamar: "não tivestes filhos; estou à sua espera". E eu vou ao encontro do que me espera.

Espero em todas as Deusas não viver de coisas passadas. Quero viver o agora.
Acho Salvador uma beleza, não sou tão feia que não possa encontrar meu homem e ora sim, ora não, acredito em parto sem dor...

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