Em certas manhãs, quando sinto um arcanjo se levantar de dentro de mim, desejo, da noite para o dia, me transformar em uma mulher dedicada aos afazeres de mãe, esposa e dona-de-casa, plena e realizada. Possivelmente eu estaria agora ocupada com alguma tarefa que ao menos preencheria meu tempo, povoaria meus pensamentos e não me daria a dimensão da solidão gritando, muda e desoladora. Só por hoje, desejaria ver a casa desarrumada, os brinquedos espalhados, o silêncio vencido pela algazarra das crianças. E de preparar uma saborosa refeição e servi-los numa mesa enorme e bem arrumada. Desejaria não um “marido”, mas um parceiro, um cúmplice para compartilhar a vida, as descobertas...
Nestas manhãs em que o arcanjo se levanta de dentro de mim, me dou conta do quanto determinadas escolhas podem definir rumos, criar destinos. Me dou conta do quão complexo é ser mulher: ser dócil e feminina, sensível e educada, mas sem deixar de lado a firmeza e a objetividade, para não correr o risco de se tornar uma pessoa emocionalmente dependente, frágil e constantemente em crise. Ser mulher hoje em dia não é tarefa para iniciantes. Quando se tem capacidade de raciocínio, então, nem se fala: para certos homens, inteligência funciona como repelente. Será que para se encontrar um namorado hoje em dia é pré-requisito ser burra e manipulável?
E ficamos ali, eu e o arcanjo, a conversar sobre as escolhas que fiz. Minha paixão pelos livros, minha sede de conhecimento, minha incessante busca pelas coisas do espírito, são uma sentença de solidão?
Já comentei certa vez que nunca sonhei com essa coisa de casamento, não da forma tradicional, como a maioria das mulheres. Só acho que não é para mim. Mas um companheiro, um parceiro para a vida, sempre desejei. E nem precisaríamos morar sob o mesmo teto. Bastava a companhia, a cumplicidade, o aconchego. Formalidades não nos dão garantia alguma. E além do mais, sou megalomaníaca e um casamento nos moldes tradicionais, me daria sensação de sufocamento, de tolhimento e obrigatoriedade. Eu gosto de ser livre e deixar o outro livre, para que esteja ao meu lado porque deseja e não porque se sente amarrado a um contrato.
Nestas manhãs o arcanjo se levanta, desperta meu instinto maternal, me faz lembrar que há quase cinco anos estou sozinha e adormece, sem me dar as respostas.

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