Quando fiquei sabendo da partida de Michael senti um aperto dolorido no peito, uma comoção meio sem sentido, sei lá. Meu pai sempre foi apaixonado pelos artistas da Motown e eu cresci ouvindo seus ídolos, que não sei se por influência ou por gosto próprio, se tornaram os meus. Os meus preferidos eram os Jackson Five, o estilo black power, as roupas coloridas, as músicas, a coreografia...
E só depois compreendi que não chorava apenas a despedida do ídolo, mas uma parte de minha vida que também morria com ele. Uma saudade do tempo em família, do tempo de menina, do tempo em que viver não doía, tempo em que o mundo era um lugar vivível...
Ontem assistindo aos noticiários sobre seu retorno à origem, fiquei a me perguntar o que move milhões de pessoas, em todo o mundo, a adorar tanto um ídolo. Não com o intuito de criticar, muito menos julgar. Apenas buscando entender o porquê de certos astros conseguirem mexer tanto com nossas emoções quando se vão para o olimpo. E acabei chegando à conclusão de que desde que o mundo é mundo, precisamos de heróis, mitos e deuses. Precisamos acreditar que existe algo além desse temível e inumano mundo que construímos e por isso elevamos nossos ídolos ao altar e os sagramos deuses. Temos a ilusão de que eles podem nos “salvar” do inferno que criamos. E por julgá-los semideuses, condenamos determinadas atitudes, deixando de refletir se não agiríamos da mesma maneira se estivéssemos em seus lugares, nos esquecendo que antes de serem ídolos, são humanos e tanto quanto nós, também têm seus próprios demônios por exorcizar, o incêndio da própria alma por apagar. Talvez as mudanças de fora tenham sido uma tentativa de amenizar o inferno que ardia por dentro.
No próprio nome trazia a marca da genialidade. Michael, de origem hebraica, quer dizer quem é como o Senhor e Jackson, de origem inglesa, uma variação do hebraico Jacob, que significa aquele que vence. De origem humilde, negro e pobre a senhor do pop. Michael soube, como poucos, nos transportar ao olimpo,com sua voz, sua música e sua dança. Suas performances nos davam a exata medida do impossível se realizando. O homem se escondia dentro do astro, na tentativa de expulsar mazelas; o homem que desejava para sempre ser menino, talvez porque soubesse que ser criança não dói, não fere .
Possivelmente a genialidade do astro tenha sido o tormento do homem. Assim como Van Gogh, Jimi Hendrix, Jim Morrison e tantos outros...
Parafraseando Drummond, em homenagem a Guimarães Rosa, “ficamos sem saber o que era Michael e se Michael existiu de se pegar”.

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